“Crie toda a felicidade que for capaz de criar; remova toda a infelicidade que for capaz de remover. Todo dia lhe permitirá, lhe convidará a acrescentar algo ao prazer dos outros, ou a diminuir algo das suas dores.”
Introdução
Até agora olhamos para o utilitarismo de um ponto de vista teórico. Mas o que o utilitarismo realmente significa na prática? Que atitudes concretas ele diz que devemos tomar? Este artigo explica o que significa viver uma vida ética da perspectiva do utilitarismo.
Há muitos problemas no mundo hoje, alguns dos quais são extremamente grandes em termos de escala. Segundo o utilitarismo, cada pessoa tem uma obrigação de trabalhar nesses problemas e tentar melhorar o mundo tanto quanto possível, atribuindo peso igual ao bem-estar de todos. Infelizmente, os nossos recursos são escassos, de modo que, enquanto indivíduos e até enquanto uma sociedade global, não podemos resolver todos os problemas do mundo de uma só vez. Isso quer dizer que temos que tomar decisões sobre como priorizar os recursos que temos. Visto que os modos de ajudar os outros não são todos igualmente eficazes, o utilitarismo implica que deveríamos escolher com cautela em quais problemas trabalhar e por quais meios.
Para fazerem o maior bem que podem, na prática muitos utilitaristas doam uma porção significativa da sua renda para tratar dos problemas mais prementes do mundo, dedicam as suas carreiras a fazer o bem e aspiram a altos graus de cooperatividade, integridade pessoal e honestidade.
Ao longo deste artigo, usamos expressões como “fazer o bem” e “ter um impacto” como abreviações de aumentar o bem-estar dos outros, em particular por meio da promoção da sua felicidade e da prevenção do seu sofrimento.
Oportunidades para Ajudar os Outros
A riqueza e a renda se distribuem de modo extremamente desigual pelo globo. Membros da classe média de países ricos como os EUA e o Reino Unido ganham 50 vezes o que ganham os 750 milhões de pessoas mais pobres do mundo; isso os coloca nos 5% mais ricos da população mundial.2 Essa disparidade de riqueza significa que um cidadão bem de vida de nações abastadas se depara com oportunidades excepcionais para beneficiar os outros.
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Ganhar acima de US$ 30.000 por ano coloca você nos 5% mais ricos da população mundial. Cf. Giving What We Can (2024). How Rich Am I?
A riqueza e a renda exibem o que os economistas chamam de utilidade marginal decrescente.3 A ideia é simples: quanto que o bem-estar de um indivíduo é aumentado por receber uma renda mais alta depende da sua renda atual. Ao passo que pessoas mais ricas reportam estar mais satisfeitas com as suas vidas como um todo, quanto mais rico você fica, menos bem-estar você consegue do dinheiro adicional. Um agricultor pobre do Quênia se beneficiará muito mais de receber um dólar adicional do que um membro da classe média de um país rico
A utilidade marginal decrescente do dinheiro implica que podemos frequentemente aumentar o bem-estar geral ao redistribuirmos dos ricos para os pobres. O bem-estar ao qual renunciamos, enquanto cidadãos de países abastados, ao doarmos US$ 100 é pequeno em comparação com o benefício que esse dinheiro daria a alguém que vive na pobreza extrema. Em vez de comprar tênis novos, doar poderia dar a alguém o equivalente a um ano ou mais de vida saudável.4
Dada a utilidade marginal decrescente do dinheiro, o flagelo da desigualdade global extrema implica que podemos fazer uma quantidade espantosa de bem ao doarmos para os pobres globais ou para outros grupos desfavorecidos. Por apenas uns poucos dólares — o preço de um café — poderíamos pagar por uma rede tratada com inseticida que protegeria da malária duas crianças num país em desenvolvimento por dois anos.5 E esse dinheiro pode ir ainda mais além quando gasto em programas eficazes dentro de outras áreas de causa.
O utilitarismo implica que deveríamos tornar ajudar os outros uma parte central das nossas vidas. Além disso, o utilitarismo nos insta a usar os nossos recursos não só para fazer algum bem, mas para fazer o maior bem que pudermos. Se não produzirmos o melhor resultado que pudermos, mais pessoas morrerão do que precisariam morrer, ou mais pessoas sofrerão danos maiores do que precisariam sofrer. Se pensamos que os danos graves que os outros neste mundo sofrem são urgentes o bastante para termos um dever de usar alguns dos nossos recursos para combater esses danos, esse mesmo dever requer que usemos esses recursos de maneiras que ajudem tanto quanto possível.
Quanto deveríamos nos sacrificar para o benefício dos outros? Para cidadãos bem de vida de países abastados, o utilitarismo dirá que eles deveriam doar uma porção substancial dos seus recursos para ajudar os outros. No entanto, os utilitaristas reconhecem que, ao decidirmos quanto doar, é importante lembrar que o feito é melhor que o perfeito. Seria um erro doarmos tanto no curto prazo a ponto de ficarmos infelizes e esgotados mais tarde. Na prática, a maioria dos utilitaristas tentam descobrir um nível de sacrifício sustentável para eles no longo prazo; para os utilitaristas focados em doações, isso tipicamente se encontra entre 10% e 50% da sua renda pré-impostos.
Altruísmo Eficaz
Muitos utilitaristas fazem sacrifícios pessoais bastante significativos por conta da sua crença no utilitarismo. Mas recentemente alguns têm argumentado que o que tentamos fazer é ainda mais importante do que o quanto de sacrifício que fazemos. Esse é um insight crucial da filosofia e movimento social do altruísmo eficaz, que é endossado por muitos utilitaristas, como Peter Singer.6
Aqueles no movimento do altruísmo eficaz tentam descobrir, entre todos os diferentes usos dos nossos recursos, quais farão o maior bem, considerado imparcialmente, e agem de acordo com isso. Assim definido, o altruísmo eficaz é tanto um projeto de pesquisa — para descobrir como fazer o maior bem — como um projeto prático — para implementar as melhores hipóteses que temos sobre como fazer o maior bem.7
Embora o utilitarismo e o altruísmo eficaz compartilhem algumas semelhanças,8 eles são coisas distintas e diferem de maneiras importantes.9 Diferentemente do utilitarismo, o altruísmo eficaz não requer que sacrifiquemos os nossos próprios interesses sempre que fazê-lo ocasionar um maior benefício para os outros. Diferentemente do utilitarismo, o altruísmo eficaz não afirma que devemos sempre buscar maximizar o bem-estar, sejam lá quais forem os meios. Finalmente, diferentemente do utilitarismo, o altruísmo eficaz não iguala o bem à soma total do bem-estar.10 Por essas e outras razões, muitos membros da comunidade do altruísmo eficaz não são utilitaristas, e antes atribuem algum peso a uma gama de teorias éticas diferentes.
Apesar dessas diferenças, geralmente os utilitaristas se encontram entusiasmados com o altruísmo eficaz. A principal razão para isso é que, entre todas as comunidades, o movimento do altruísmo eficaz chega o mais próximo de aplicar ideias e valores utilitaristas centrais ao mundo real.
Além disso, juntar-se a uma comunidade de pessoas com objetivos em comum como o altruísmo eficaz pode ser uma das melhores maneiras de seus membros aumentarem o seu impacto. Tal comunidade permite a um grupo de pessoas dar apoio mútuo umas às outras e se coordenar mais efetivamente, e assim alcançar mais que aquilo que eles poderiam alcançar como indivíduos.
Os membros do movimento do altruísmo eficaz frequentemente decompõem o problema de como fazer o maior bem em duas partes: primeiro, em qual problema (“causa”) eu deveria focar? Segundo, quais meios eu deveria seguir para tratar desses problemas? Discutiremos essas duas questões no restante deste artigo.
Priorização de Causas
Para descobrirmos quais são as ações mais eficazes, primeiro temos que saber em quais causas focar. Os utilitaristas são imparciais quanto a causas, o que quer dizer que eles visam contribuir às causas em que esperam fazer o maior bem. Quais causas promoveriam o bem-estar da forma mais eficaz se elas recebessem maior atenção? Encontrar a resposta para essa questão chama-se priorização de causas.
Visto que alguns problemas morais podem ser muito mais importantes que outros, escolher em qual causa focar pode ser o fator mais importante no tocante à quantidade de bem que um indivíduo fará. No entanto, o mundo é complexo, e encaramos uma alta incerteza sobre quais são os melhores modos de melhorar o mundo. Essa incerteza causa um desacordo razoável sobre quais são as melhores causas nas quais trabalhar. Mas o altruísmo eficaz tem feito algum progresso ao delinear três causas sociais que parecem particularmente prementes: (i) a saúde e o desenvolvimento globais, (ii) o bem-estar animal na pecuária e (iii) a redução de riscos existenciais.
Saúde e Desenvolvimento Globais
“Uma coisa que importa enormemente é a falha de nós, ricos, em não impedir, como poderíamos tão facilmente, muito do sofrimento e muitas das mortes prematuras das pessoas no mundo.”
– Derek Parfit11
Conforme explicado no capítulo O Utilitarismo e a Ética Prática, os utilitaristas endossam o cosmopolitismo, segundo o qual a distância geográfica entre um ator e alguém que ele pode ajudar não é moralmente relevante em si mesma. O cosmopolitismo implica que deveríamos procurar intervenções eficazes para ajudarmos os outros, independentemente da sua nacionalidade, onde eles vivem e de onde eles vêm.
Com base nisso, a saúde e o desenvolvimento globais podem ser considerados uma causa de alta prioridade para os utilitaristas.12 Esforços nessa área têm um ótimo histórico de melhorar vidas, fazendo essa causa parecer especialmente tratável. Durante a maior parte da história humana, era a norma que cerca de duas entre cada cinco crianças morressem antes do seu quinto aniversário, em grande parte devido a causas evitáveis. Com os melhoramentos no saneamento e no acesso ao cuidado médico, temos feito desde então um progresso tremendo contra a mortalidade infantil, tendo as taxas globais caído para apenas 4,5% em 2015.13
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No entanto, esse progresso não é razão para nos darmos por satisfeitos, visto que temos um longo caminho a seguir: uma taxa de mortalidade infantil de 4,5% ainda significa que cerca de 15.000 crianças morrem pelo mundo todo dia.14 Felizmente, podemos diminuir esse número ainda mais. As melhores intervenções na saúde e no desenvolvimento globais são incrivelmente boas em termos de custo-efetividade: a GiveWell, uma organização que é uma liderança na avaliação aprofundada de instituições de caridade, estima que as instituições de caridade mais bem classificadas previnem a morte de uma criança pela malária por apenas US$ 5.000 ao proverem medicamentos preventivos.15
Outras maneiras de ajudar os muitos pobres que são baseadas em evidências e positivas em termos de custo-efetividade incluem a doação de tratamentos de desparasitação, a distribuição de redes mosquiteiras antimalária, o fornecimento de fortificantes de vitamina A e a simples transferência de dinheiro.16 Todas essas intervenções apresentam oportunidades espetaculares para melhorarmos o bem-estar dos outros a um custo bem baixo para nós.
Bem-Estar Animal na Pecuária
“A questão não é: ‘Podem eles raciocinar?’, tampouco: ‘Podem eles falar?’, mas sim: ‘Podem eles sofrer?’. Por que a lei deveria recusar a sua proteção a um ser sensível que seja? (…) Chegará o tempo em que a humanidade estenderá o seu manto sobre tudo que respira."
Melhorar o bem-estar dos animais da pecuária deveria ser uma prioridade para os utilitaristas. O argumento para essa conclusão é simples: primeiro, os animais importam moralmente; segundo, os humanos causam uma enorme quantidade de sofrimento desnecessário aos animais na pecuária industrial; terceiro, há modos fáceis de reduzirmos o número de animais na pecuária e a severidade do seu sofrimento. Passaremos por essas premissas uma por uma.
Primeiro, conforme explicado no capítulo O Utilitarismo e a Ética Prática, os utilitaristas rejeitam o especismo: discriminar aqueles que não pertencem a certa espécie. À luz do utilitarismo, deveríamos dar consideração moral igual ao bem-estar de todos os indivíduos, não importa a qual espécie eles pertençam.18
Segundo, encontramo-nos numa situação sem precedentes históricos, em que a cada ano os humanos matam cerca de 70 bilhões de animais para a alimentação.19 A vasta maioria deles passam a vida em fazendas industriais em condições horrendas,20 amontoados juntos com pouco espaço, sem luz ou estímulos naturais e com um risco constante de desenvolver enfermidades como ossos fragilizados ou quebrados, infecções ou falência dos órgãos. As vidas da maioria deles são findadas prematuramente quando são abatidos para serem comidos. Esses animais sofredores provavelmente estão entre as criaturas em pior situação neste planeta.
Terceiro, podemos melhorar significativamente as vidas dos animais na pecuária por apenas moedas por animal. Nos anos recentes, ativistas têm feito campanhas direcionadas a inúmeros distribuidores de grande porte e redes de fast-food para eliminarem das suas cadeias de suprimento os ovos de galinhas criadas em gaiolas. As pesquisas sugerem que essas campanhas pelo bem-estar animal direcionadas a corporações melhoraram as vidas de algo entre 9 e 120 galinhas por dólar gasto por livrá-las do confinamento nas gaiolas.21 Por causa dos números consideráveis de seres sencientes envolvidos, fazermos progresso na melhoria do bem-estar dos animais na pecuária poderia evitar uma quantidade enorme de sofrimento.
Não obstante isso, apesar do tamanho do problema, o bem-estar dos animais na pecuária é altamente negligenciado.
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Fonte: Animal Charity Evaluators
Nos EUA, apenas umas poucas dezenas de dólares da filantropia são doadas todo ano para organizações que focam na melhoria das vidas dos animais na pecuária. A quantidade gasta é ínfima em comparação com outras causas animais: há 3.000 vezes mais animais em fazendas industriais do que há animais de estimação abandonados, mas os esforços para tratar da pecuária industrial recebem um quinto do financiamento gasto para ajudar os animais abandonados.22
Redução de Riscos Existenciais
“Os utilitaristas clássicos (…) afirmariam, como Sidgwick afirmou, que a destruição da humanidade seria de longe o maior de todos os crimes concebíveis. A maldade desse crime se encontraria na vasta redução da possível soma da felicidade.”
— Derek Parfit23
O capítulo O Utilitarismo e a Ética Prática apresentou o longotermismo forte, segundo o qual o determinante mais importante do valor das nossas ações no presente é o modo como essas ações afetam o futuro muito distante. O longotermismo forte decorre do utilitarismo — e uma ampla gama de outros pontos de vista morais — se presumimos que algumas das nossas ações podem afetar significativamente o futuro de longo prazo e que podemos estimar quais efeitos são positivos e quais, negativos.24
À luz do longotermismo, os problemas morais mais importantes são aqueles em que temos a maior influência de afetar positivamente as gerações futuras. Em particular, deveríamos estar altamente preocupados com os riscos existenciais — como a guerra nuclear completa, ou mudanças climáticas extremas, ou uma pandemia global projetada —, que são definidos da seguinte maneira:
Um risco existencial é um risco que ameaça a destruição do potencial de longo prazo da humanidade.25
Além das mortes de todos os 8 bilhões de pessoas neste planeta, uma catástrofe existencial também implicaria a perda de todo o futuro potencial da humanidade. Resumindo, se ocorresse uma catástrofe existencial, a perda de valor seria astronômica.26
Se evitarmos a catástrofe existencial, a civilização humana poderia sobreviver por cerca de um bilhão de anos antes que a Terra não fosse mais habitável. E se um dia colonizássemos outros planetas, a civilização poderia continuar por mais bilhões e trilhões.27 Podemos também esperar que a qualidade de vida continue a melhorar. Temos visto melhoramentos dramáticos no bem-estar da humanidade nos séculos mais recentes, provocados pelo desenvolvimento tecnológico e o progresso moral. Essas tendências permitiram que mais de nós levássemos vidas mais longas e realizadas.28 Felizmente, devemos esperar que mais avanços na ciência e na medicina continuem a melhorar vidas no futuro.
Portanto, a extinção da humanidade privaria irreversivelmente a humanidade de um futuro potencialmente grandioso e inviabilizaria trilhões de vidas vindouras. A concretização de um risco existencial seria unicamente ruim e muito pior que catástrofes não existenciais. Visto que o que está em jogo com os riscos existenciais é tão grande, a sua mitigação pode, portanto, ser uma das questões morais mais importantes que encaramos.29
O trabalho para garantir que o futuro de longo prazo da humanidade vá bem não só é muito importante como também muito negligenciado. Indivíduos futuros não têm a oportunidade de influenciar as decisões que tomamos no presente em nossos sistemas econômicos e políticos; eles não participam dos mercados no presente e eles não podem votar. Em essência, indivíduos futuros não têm voz. Contra esse pano de fundo, não é de surpreender que a nossa geração negligencie sistematicamente os interesses e o bem-estar de muitos indivíduos que existirão no futuro.
Para uma discussão detalhada sobre riscos existenciais e a importância moral do futuro de longo prazo da humanidade, recomendamos The Precipice: Existential Risk and the Future of Humanity.
Caminhos para o Impacto
Como podemos tratar das causas mais importantes? Em geral, há três estratégias que são mais impactantes. Primeiro, podemos doar dinheiro para a caridade. Segundo, podemos trabalhar numa carreira que ajude os outros. Por último, porém não menos importante, podemos encorajar outras pessoas a também praticar essas ações.
Conforme ressaltado no capítulo O Utilitarismo e a Ética Prática, ao passo que os utilitaristas aceitam uma obrigação de tentar fazer o maior bem que puderem, na prática eles deveriam quase sempre evitar violar proibições morais do senso comum como aquelas contra mentir ou matar. Um bom utilitarista, portanto, geralmente faria melhor ao agir de acordo com virtudes morais do senso comum como a integridade, a credibilidade, o cumprimento às leis e a justiça, e não tentando avaliar cada ação em termos utilitaristas caso a caso.
Doação para a Caridade
Em forma de slogan, a recomendação utilitarista de usar seu dinheiro para ajudar os outros é “doe mais e doe melhor”. Doar mais explica a si mesmo. Doar melhor significa encontrar e doar para organizações que fazem o melhor uso da sua doação.
Já vimos que nós, cidadãos de países abastados, estamos nos poucos por cento mais ricos da população mundial. Ao fazermos pequenos sacrifícios, nós no mundo abastado temos o poder de melhorar dramaticamente as vidas dos outros. Devido às desigualdades extremas de riqueza e renda, podemos fazer muito mais bem ao doar dinheiro àqueles mais em necessidade do que ao gastá-lo com nós mesmos.30 Felizmente, um número cada vez maior de pessoas abastadas reconhecem a posição única em que elas estão e têm decidido doar mais dos seus recursos para beneficiar os outros. Por exemplo, a Giving What We Can é uma comunidade crescente de pessoas que fizeram o juramento de doar pelo menos 10% da sua renda pelo resto das suas vidas para onde for que elas creem que o dinheiro fará o maior bem.31 Mais de 9.000 pessoas já fizeram o juramento, jurando doar coletivamente bilhões de dólares ao longo dos seus tempos de vida.
Simplesmente doar mais realiza pouco bem, no entanto, se o dinheiro não é gasto com sabedoria. Algumas maneiras de fazer a diferença fazem vastamente mais bem do que outras. A maioria das pessoas acha que as melhores instituições de caridade diferem da média em sua eficácia somente por um fator de cerca de 1,5.32 No entanto, contraintuitivamente, as melhores instituições de caridade em termos de custo-efetividade são dezenas ou até centenas de vezes mais eficazes que as instituições de caridade típicas.33 Por causa dessas vastas diferenças entre instituições de caridade, a decisão sobre para onde doar é de grande consequência; fazer o maior bem requer que tomemos essa decisão de maneira bem cuidadosa.
Para doarmos melhor, podemos seguir as recomendações de organizações como a GiveWell, que realiza avaliações de instituições de caridade excepcionalmente aprofundadas. A estimativa baseada nas melhores hipóteses da GiveWell é de que as melhores instituições de caridade em termos de custo-efetividade que trabalham na saúde global podem salvar a vida de uma criança por menos de US$ 5.000.34 Ao doar 10% da sua renda a cada ano, uma pessoa abastada salvará a vida de uma criança todo ano — dezenas de vidas ao longo do seu tempo de vida. E se essa pessoa fosse focar nas causas mais importantes, é plausível que ela poderia fazer ainda muito mais bem.
O que talvez seja surpreendente é que um compromisso pessoal significativo de ajudar os outros envolve sacrificar muito menos do que a princípio poderíamos pensar. Os estudos sugerem que, embora haja uma correlação positiva entre a renda e a felicidade, ela não é tão forte quanto poderíamos pensar. Nos EUA, por exemplo, uma redução da renda em 10% se associa com uma queda de somente 1% numa escala que mede a satisfação com a vida.35 Além disso, não é claro, absolutamente, que deveríamos pensar numa doação de 10% como equivalente a uma perda de renda de 10%. Há algumas evidências (conflitantes) que sugerem que gastar dinheiro com os outros frequentemente melhora o nosso bem-estar tanto quanto ou mais que gastar com nós mesmos.36 Logo, não é claro nem que doar 10% da sua renda seria um sacrifício pessoal, ponto final.37
Escolha de Carreira
Uma segunda maneira de ajudar a resolver os problemas mais importantes do mundo é escolher o caminho certo para a carreira: a maioria de nós passará 80.000 horas durante as nossas vidas nas nossas carreiras profissionais, e algumas carreiras realizam mais bem do que outras. A sua escolha de carreira é, portanto, uma das escolhas morais mais importantes da sua vida. Ao utilizar esse tempo para tratar dos problemas mais prementes do mundo, você pode fazer uma quantidade enorme de bem. Ainda assim, está longe de óbvio quais carreiras permitiriam a você fazer o maior bem de uma perspectiva utilitarista.
Felizmente, há pesquisas disponíveis para nos ajudar a fazer escolhas mais informadas. A organização 80,000 Hours38 visa resolver os problemas mais prementes do mundo ao conseguir que mais pessoas talentosas trabalhem neles. Para fazer isso, ela efetua pesquisas sobre como indivíduos talentosos podem maximizar o impacto social das suas carreiras, oferece conselhos on-line e dá apoio a leitores que poderiam ser capazes de entrar em áreas de prioridade.
Como com as doações, escolher uma carreira impactante não precisa envolver muito sacrifício pessoal: podemos desfrutar de uma variedade muito mais ampla de trabalhos do que podemos pensar antes de experimentá-los.39 Além disso, é improvável que você prospere num emprego que não o agrada. Seria insustentável seguir uma carreira fazendo algo que você odeia. Algo relacionado a isso é que manter a sua saúde física e o seu bem-estar emocional é crucial para garantir que você não se esgote e que continue fazendo o bem pelo longo prazo. Portanto, escolher uma carreira que maximize o seu impacto social não envolve abrir mão de uma carreira que seja satisfatória, desafiadora e desfrutável.
Divulgação
Terceiro, à luz do utilitarismo, um modo eficaz de fazer o bem é inspirar os outros a tentarem fazer mais bem. Assim, a melhor estratégia para muitas pessoas pode ser desenvolver e promover as ideias e valores associados ao utilitarismo ou ao altruísmo eficaz e ser um modelo positivo em seu comportamento. Ao conscientizar as pessoas sobre essas ideias, é plausível que você possa inspirar várias pessoas a seguir as recomendações dessas filosofias. Dessa forma você alcançará um efeito multiplicador no seu impacto social: as pessoas que você inspirar farão várias vezes mais bem do que você teria realizado ao trabalhar diretamente para resolver os problemas morais mais importantes. Porque o utilitarismo e o altruísmo eficaz ainda são pouco conhecidos e pouco compreendidos, pode haver muito valor na promoção dessas ideias.
Conclusão
Os utilitaristas estão comprometidos em tornar ajudar os outros uma parte bastante significativa das suas vidas. Além disso, eles creem que, ao ajudarem os outros, devem tentar usar os seus recursos para fazer o maior bem que puderem, considerado imparcialmente.
As áreas atualmente entre as maiores prioridades para os utilitaristas beneficiam predominantemente grupos que não podem defender os seus próprios interesses. Isso inclui pessoas na pobreza extrema, animais não humanos e indivíduos futuros. Olhamos em três causas em particular: melhorar as condições daqueles na pobreza extrema, reduzir o sofrimento dos animais da pecuária industrial e melhorar o bem-estar de gerações futuras por meio da redução de riscos existenciais.
Para fazerem o maior bem que podem, os utilitaristas frequentemente doam dinheiro para instituições de caridade eficazes, trabalham na ajuda aos outros com a sua carreira e fazem trabalho de divulgação que visa encorajar outras pessoas a fazerem essas coisas. Encaramos vários problemas morais graves, que apresentam oportunidades para fazermos uma enorme quantidade de bem. Para beneficiarem os outros tanto quanto possível, os utilitaristas priorizam cautelosamente entre as suas opções, concentrando os seus esforços onde for que creem que podem fazer a maior contribuição positiva ao bem estar geral.
Como Citar esta Página
Recursos e Leituras Adicionais
Geral
- Peter Singer (2011). Practical Ethics, 3rd edition. Cambridge University Press.
- Katarzyna de Lazari-Radek & Peter Singer (2017). Chapter 6: Utilitarianism in Action, Utilitarianism: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press.
Altruísmo Eficaz
- William MacAskill (2019). Effective Altruism. The Norton Introduction to Ethics, Elizabeth Harman & Alex Guerrero (eds.).40
- William MacAskill (2015). Doing Good Better: Effective Altruism and How You Can Make a Difference. New York: Penguin Random House.
- William MacAskill (2018). What Are the Most Important Moral Problems of Our Time? TED.
- Peter Singer (2013). The Why and How of Effective Altruism. TED.
- Sites e organizações relevantes para o altruísmo eficaz:
- Effectivealtruism.org: introdução ao altruísmo eficaz e recursos adicionais. (Veja o site em português.)
- GiveWell: avaliadora de instituições de caridade para se encontrarem oportunidades de doação excepcionais. (Veja o site em português.)
- 80,000 Hours: organização de pesquisa sem fins lucrativos que visa ajudar indivíduos talentosos a maximizar o impacto social das suas carreiras. (Veja o site em português.)
- Giving What We Can: comunidade de pessoas que fizeram um juramento de doar 10% dos seus rendimentos pela vida toda a instituições de caridade eficazes.
- Charity Entrepreneurship: incubadora de instituições de caridade que ajuda a iniciar múltiplas instituições de caridade de alto impacto anualmente.
- Podcasts sobre o altruísmo eficaz e o utilitarismo:
- Effective Altruism: An Introduction. 80,000 Hours Podcast.
- William MacAskill (2020). Doing Good. Making Sense with Sam Harris.
- Peter Singer (2016). What is Moral Progress?. Making Sense with Sam Harris.
- Gus Docker. Utilitarian Podcast.
Saúde e Desenvolvimento Globais
- Peter Singer (2019). The Life You Can Save, updated 10th anniversary edition. New York: Penguin Random House. (O livro está disponível para ser baixado gratuitamente)
- Toby Ord (2019). The Moral Imperative toward Cost-Effectiveness in Global Health, em Greaves, H. (ed.) Effective Altruism: Philosophical Issues. Oxford University Press.
- Peter Unger (1996). Living High and Letting Die: Our Illusion of Innocence. Oxford: Oxford University Press.
Bem-Estar Animal na Pecuária
- Tyler John and Jeff Sebo. Consequentialism and Nonhuman Animals. Em The Oxford Handbook of Consequentialism, Portmore, D. (ed.). Oxford: Oxford University Press.
- Lewis Bollard (2021). Lewis Bollard on big wins against factory farming and how they happened. 80,000 Hours Podcast.
- Jess Whittlestone (2017). Animal Welfare. Effective Altruism.
Riscos Existenciais
- Toby Ord (2020). The Precipice: Existential Risk and the Future of Humanity. London: Bloomsbury Publishing.
- Nick Bostrom (2013). Existential Risk Prevention as Global Priority. Global Policy. 4(1): 15–31.
O conselho de Bentham a uma jovem menina em 1830. ↩︎
O Banco Mundial estimou que que 734 milhões de pessoas viviam na pobreza extrema em 2015, o que significa que elas ganhavam menos que US$ 1,90 por dia (em preços de 2011). Assim, uma renda anual de US$ 35.000 corresponde a 50 vezes a renda anual de uma pessoa que vive logo abaixo da linha da pobreza extrema. ↩︎
Cf. Drupp et al. (2018). Discounting Disentangled. American Economic Journal: Economic Policy, 10 (4): 109-34. ↩︎
GiveWell (2019). Your Donation Can Change Someone’s Life. ↩︎
GiveWell (2018). Mass Distribution of Long-Lasting Insecticide-Treated Nets (LLINs). ↩︎
Em 2013, Peter Singer deu uma palestra TED sobre o altruísmo eficaz. Para uma introdução mais detalhada e recente ao altruísmo eficaz, veja MacAskill, W. (2019). Effective Altruism. The Norton Introduction to Ethics, Elizabeth Harman & Alex Guerrero (eds.). Observe que o Professor William MacAskill, coautor deste site, é também coautor desse artigo. ↩︎
Para uma discussão filosófica detalhada sobre o altruísmo eficaz, veja os 16 artigos incluídos em Greaves, H. & Pummer, T. (2019). Effective Altruism: Philosophical Issues. Oxford: Oxford University Press. ↩︎
“É verdade que o altruísmo eficaz tem algumas semelhanças com o utilitarismo: é maximizador, está focado primeiramente na melhoraria do bem-estar, muitos membros da comunidade fazem sacrifícios significativos a fim de fazer mais bem e muitos membros da comunidade descrevem a si mesmos como utilitaristas."
MacAskill, W. (2019). The Definition of Effective Altruism. Em Greaves, H. & Pummer, T (ed.). Effective Altruism: Philosophical Issues. Oxford: Oxford University Press. ↩︎
Veja MacAskill, W. (2019). The Definition of Effective Altruism. Em Greaves, H. & Pummer, T (ed.). Effective Altruism: Philosophical Issues. Oxford: Oxford University Press. ↩︎
O altruísmo eficaz “é compatível com o igualitarismo, com o prioritarismo e, porque não afirma que o bem-estar é a única coisa de valor, com visões nas quais bens não bem-estaristas são de valor”.
MacAskill, W. (2019). The Definition of Effective Altruism. Em Greaves, H. & Pummer, T (ed.). Effective Altruism: Philosophical Issues. Oxford: Oxford University Press. ↩︎
Parfit, D. (2017). On What Matters, Volume Three. Oxford: Oxford University Press., pp. 436-437. ↩︎
Por exemplo, o livro de Peter Singer The Life You Can Save (a edição do aniversário de 10 anos está disponível para ser baixada gratuitamente) faz uma defesa da importância ética de melhorar a saúde global e o desenvolvimento internacional. ↩︎
Roser, M.; Ritchie, H. & Dadonaite, B. (2019). Child & Infant Mortality. Our World In Data. ↩︎
Roser, M.; Ritchie, H. & Dadonaite, B. (2019). Child & Infant Mortality. Our World In Data. ↩︎
GiveWell (2019). Your Dollar Goes Further Overseas. ↩︎
GiveWell (2019). Top Charities. ↩︎
Bentham, J. (1789). An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. Bennett, J. (ed.)., pp. 143-144. ↩︎
Conforme explicado no capítulo O Utilitarismo e a Ética Prática, dar consideração igual a todos os animais não implica necessariamente que deveríamos tratá-los todos igualmente. ↩︎
Sanders, B. (2018). Global Animal Slaughter Statistics And Charts. Faunalytics. ↩︎
Witwicki, K. (2019). Global Farmed & Factory Farmed Animals Estimates. Sentience Institute. ↩︎
Šimčikas, S. (2019). Corporate campaigns affect 9 to 120 years of chicken life per dollar spent. Effective Altruism Forum. ↩︎
Cf. Animal Charity Evaluators (2016). Why Farmed Animals? ↩︎
Parfit, D. (1984). Reasons and Persons. Oxford: Oxford University Press., p. 454. ↩︎
Para uma discussão sobre o longotermismo e os seus pressupostos subjacentes, veja Greaves, H. & MacAskill, W. (2019). The case for strong longtermism. Global Priorities Institute. Observe que o Professor William MacAskill, coautor deste site, é também coautor desse artigo. ↩︎
Ord, T. (2020). The Precipice: Existential Risk and the Future of Humanity. London: Bloomsbury Publishing., p. 37.
Focaremos no risco de extinção como o exemplo mais simples disso, mas também podemos imaginar resultados nos quais a humanidade sobrevive, porém com seu potencial de longo prazo permanentemente prejudicado. ↩︎
Cf. Bostrom, N (2003). Astronomical Waste: The Opportunity Cost of Delayed Technological Development. Utilitas. 15(3): 308–314. ↩︎
Cf. Nick Beckstead (2013). On the Overwhelming Importance of Shaping the Far-Future. PhD Dissertation, Rutgers University., Section 3: The Case for Shaping the Far Future. ↩︎
Roser, M. (2019). The short history of global living conditions and why it matters that we know it. Our World In Data. ↩︎
Cf. Bostrom, N. (2013). Existential Risks as a Global Priority. Global Policy. 4(1): 15–31. ↩︎
Cf. MacAskill, W. (2014). Doing Good Better: How Effective Altruism Can Help You Make a Difference. New York: Random House. Chapter 1. Observe que o Professor William MacAskill, coautor deste site, é o autor de Doing Good Better. ↩︎
Observe que o Professor William MacAskill, coautor deste site, é cofundador da Giving What We Can. ↩︎
Caviola, L., Schubert, S., Teperman, E., Moss, D., Greenberg, S., & Faber, N. (2020). Donors vastly underestimate differences in charities’ effectiveness. Judgment and Decision Making. 15(4): 509-516. ↩︎
GiveWell (2019). Your Dollar Goes Further When You Fund the Right Program. e Cf. Ord, T. (2011). The Moral Imperative toward Cost-Effectiveness in Global Health. Center for Global Development. ↩︎
GiveWell (2019). Your Dollar Goes Further Overseas. ↩︎
Stevenson & Wolfers (2013). Subjective Well-Being and Income: Is There Any Evidence of Satiation?. American Economic Review, American Economic Association. 103(3): 598-604. ↩︎
Dunn, E.; Gilbert, D. & Wilson, T. (2011). If money doesn’t make you happy, then you probably aren’t spending it right. Journal of Consumer Psychology. 21(2): 115-125. ↩︎
Para mais detalhes, veja MacAskill, W.; Mogensen, A. & Ord, T. (2018). Giving Isn’t Demanding. Em Woodruff, P. (ed.) The Ethics of Giving: Philosophers’ Perspectives on Philanthropy. Oxford: Oxford University Press., pp. 178-203. Observe que o Professor William MacAskill, coautor deste site, é um coautor desse artigo. ↩︎
Observe que o Professor William MacAskill, coautor deste site, é cofundador da 80,000 Hours. ↩︎
Cf. Todd, B. (2017). We reviewed over 60 studies about what makes for a dream job. Here’s what we found. 80,000 Hours. ↩︎
Observe que o Professor William MacAskill, coautor deste site, é o autor de várias das fontes listadas sobre o altruísmo eficaz. Além disso, ele é cofundador tanto da 80,000 Hours quanto da Giving What We Can. ↩︎