A Objeção da Exigência

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O utilitarismo não nos pede para sermos moralmente perfeitos. Pede-nos para fazermos face às nossas limitações morais e fazermos tanto quanto humanamente pudermos para superá-las.

— Joshua Greene, Moral Tribes, p. 284

A Objeção da Exigência

Muitos críticos argumentam que o utilitarismo é exigente demais, pois ele requer que sempre ajamos de modo a gerar o melhor resultado. A teoria não deixa espaço nenhum para ações que são permissíveis, mas não geram as melhores consequências. Os filósofos denominam tais ações que são moralmente boas, porém não requeridas, supererrogatórias; o utilitarismo maximizador (como, de modo mais amplo, o consequencialismo maximizador) nega que alguma ação possa ser supererrogatória. Como resultado, alguns críticos afirmam que o utilitarismo é uma moral somente para santos.1

Muito poucas pessoas, incluindo os filósofos utilitaristas, vivem as suas vidas em perfeita conformidade com o utilitarismo. Por exemplo, considere que o dinheiro que uma pessoa gasta num jantar fora poderia pagar por várias redes mosquiteiras, cada uma protegendo da malária duas crianças num país de baixa renda por cerca de dois anos.2 De uma perspectiva utilitarista, o benefício para a pessoa advindo de jantar fora é muito menor que o benefício para a criança advindo de não ter malária, de modo que pareceria que a pessoa agiu incorretamente ao escolher ter uma refeição fora. Um raciocínio análogo se aplica ao modo como fazemos uso do nosso tempo: as horas que uma pessoa passa em mídias sociais, aparentemente, ela deveria passar voluntariando-se para uma instituição de caridade ou trabalhando mais duro no seu emprego para ganhar mais dinheiro para fazer doações.

Para muitas pessoas, essas obrigações extremas do utilitarismo parecem absurdas à primeira vista. Segundo a moral do senso comum, é-nos permitido gastar a maior parte da nossa renda com nós mesmos, nossos entes queridos e nossos projetos pessoais. Fazer caridade, à luz do senso comum, é bom e louvável, mas não obrigatório.

Os proponentes do utilitarismo poderiam responder a essa objeção de quatro maneiras. Passaremos por uma de cada vez.

Acomodar a Intuição

Um modo de amenizar as demandas do utilitarismo é argumentar que a moral deve levar em consideração as limitações psicológicas humanas, como a nossa fraqueza de vontade. O utilitarismo reconhece que não podemos trabalhar o tempo todo para ajudar os outros sem nos esgotarmos, o que nos levaria a fazer menos bem no geral no longo prazo. De modo semelhante, precisamos gastar dinheiro com nós mesmos para ficarmos razoavelmente felizes e saudáveis a fim de sustentarmos a nossa motivação de fazer o bem no longo prazo.

Além disso, é com frequência justificado que utilitaristas gastem dinheiro ou tempo para acomodarem as expectativas e necessidades das outras pessoas. Se o utilitarismo for associado ao autossacrifício extremo, os outros podem não querer se juntar a causas utilitaristas. De modo semelhante, pode às vezes ser justificado com base no utilitarismo pagarmos jantares caros, caso isso nos permita ter encontros importantes com não utilitaristas que não iriam querer se autossacrificar.

No entanto, mesmo que aceitemos que gastar recursos com nós mesmos é de grande importância instrumental para sermos capazes de beneficiar os outros, a maioria de nós deve admitir que poderíamos fazer mais. O utilitarismo continua sendo uma teoria ética exigente na prática, mesmo quando levamos em conta a psicologia nossa e dos outros.

Uma acomodação mais robusta pode ser garantida rejeitando-se a noção comum de “requerimento” moral. Conforme explicado no capítulo 2:

Os utilitaristas concordam que você idealmente deve escolher seja lá qual ação melhor promoveria o bem-estar globalmente. É isso o que você mais tem razão moral para fazer. Mas eles não recomendam culpá-lo toda vez que você fica aquém desse ideal. Consequentemente, muitos utilitaristas consideram enganoso tomar as suas afirmações sobre o que idealmente deve ser feito como oferecendo uma explicação da “retidão” ou “obrigação” moral no sentido comum.

Segundo o utilitarismo, se uma pessoa deve ser culpada pelas suas ações é em si algo a ser decidido com base nas consequências que culpá-la teria. Culpar as pessoas sempre que elas não fazem o maior bem provavelmente terá más consequências, pois desencoraja as pessoas de sequer tentarem. O utilitarismo antes recomendaria geralmente elogiar as pessoas que dão passos na direção certa, ainda que fiquem aquém do ideal utilitarista. Isso mostra como a noção utilitarista de “errado” destoa do entendimento do senso comum de “errado”, que está muito mais vinculado à culpabilidade.

De fato, numa versão escalar ou satisfaciente do utilitarismo, fazer menos do que o melhor absolutamente não precisa ser considerado “errado”; é simplesmente menos do que seria ideal. O utilitarismo satisfaciente identifica algum limiar inferior mínimo para o que é “requerido” para evitar a culpabilidade, ao passo que o consequencialismo escalar evita tais limiares inteiramente, antes avaliando a qualidade moral das ações numa escala contínua de melhor a pior. É melhor que uma pessoa abastada doe para a caridade 10% do que 1% da sua renda, o qual é melhor do que não doar absolutamente nada.

Desmistificar a Intuição

A segunda linha de resposta é argumentar que intuições de exigência comuns pressupõem (em vez de apoiarem de modo independente) o não consequencialismo. Ao pedir aos comparativamente ricos para fazerem muito para ajudar os menos afortunados, o utilitarismo impõe alguns custos não triviais aos ricos. Mas compare isso aos males suportados pelos menos afortunados por conta do fato de os ricos menos (ou nada) fazerem para ajudá-los. Esses males excedem vastamente os custos que o utilitarismo imporia aos ricos. Os utilitaristas podem, assim, argumentar que são as visões não utilitaristas que são “exigentes demais” visto que impõem maiores custos no geral e concentram esses custos nos menos capazes de suportá-los.

David Sobel desenvolve esse argumento em A Impotência da Objeção da Exigência:3

Considere o caso de José e Sara. José tem dois rins saudáveis e pode viver uma vida decente, porém reduzida, com apenas um. Sara precisa de um dos rins de José para viver. Apesar de que a transferência resultaria numa situação melhor no geral, o pensamento da Objeção da Exigência é que seria demais pedir a José para abrir mão de um rim que ele tem a permissão moral de não doar. O tamanho do custo para José torna a alegada demanda moral de que José doe o rim irrazoável, ou pelo menos não genuinamente uma obrigação moral de José. O consequencialismo, dizem-nos nossas intuições, exige demais de José ao requerer que ele sacrifique um rim para Sara.

Mas considere as coisas do ponto de vista de Sara. Suponha que ela reclame do tamanho do custo que uma teoria moral não consequencialista permite recair sobre ela. Suponha que ela diga que tal teoria moral, ao permitir que os outros a deixem morrer quando poderiam ajudá-la, demanda excessivamente dela. Claramente, Sara ainda não entendeu completamente o que tipicamente os filósofos querem dizer com a Objeção da Exigência. O que é que ela não entendeu sobre a Objeção? Por que será que o consequencialismo exige demais da pessoa que sofreria custos significativos, caso fosse auxiliar os outros conforme requer o consequencialismo; mas a moral não consequencialista, similarmente, não exige demais de Sara, a pessoa que sofreria mais custos significativos caso não fosse auxiliada, conforme permite a alternativa ao consequencialismo?4

Podemos pôr em dúvida ainda mais as nossas intuições de exigência observando outras aparentes inconsistências na sua aplicação. Por exemplo, muitos filósofos — tanto utilitaristas como não utilitaristas — aceitariam prontamente que a moral pode ser muito exigente em tempos de guerra. Eles poderiam pensar que, em circunstâncias bélicas, as pessoas podem ter de fazer grandes sacrifícios, inclusive abrir mão da sua propriedade ou até da sua vida. Não obstante, em tempos de paz, milhões de pessoas vivem hoje em circunstâncias terríveis de pobreza extrema, e bilhões de animais sofrem em fazendas industriais e são mortos todo ano. Ao mesmo tempo, muitas pessoas abastadas desfrutam de uma ampla gama de bens de luxo e têm acesso a canais eficazes pelos quais poderiam ajudar os pobres. Da perspectiva utilitarista, no mundo hoje há tanto em jogo quanto em tempos de guerra. Por essa razão, não é mais — e, plausivelmente, é muito menos — exigente requerer que os abastados doem dinheiro para ajudar os pobres no momento presente do que o é requerer que soldados sacrifiquem as suas vidas numa guerra contra, digamos, um autoritarismo cruel.

Vale observar que o utilitarismo não pediria tanto de nós se a maioria dos indivíduos abastados agissem moralmente e partilhassem mais dos seus recursos com os mais necessitados. O utilitarismo só se torna exigente porque poucas pessoas abastadas fazem alguma coisa significativa para tratar dos maiores problemas no mundo. No entanto, ainda que os abastados fossem tão caridosos que fazer mais caridade tivesse um valor desprezível, ainda haveria ocasiões em que o utilitarismo faria grandes demandas de nós, como quando devemos sacrificar a nossa própria vida para salvar as vidas de vários outros indivíduos. Portanto, embora o presente apontamento mitigue um tanto a força da objeção da exigência, ele não a desarma completamente.

Atacar as Alternativas

Uma terceira resposta é argumentar que visões morais não utilitaristas são com frequência insuficientemente exigentes. Já estabelecemos que cidadãos de países abastados podem prevenir uma porção substancial de sofrimento e morte em nações em desenvolvimento a um custo comparativamente baixo para si mesmos ao doarem para organizações de auxílio altamente eficazes. Segundo muitas visões não utilitaristas, é bom, porém inteiramente opcional, doarmos uma porção significativa da nossa renda para a caridade. No entanto, é plausível pensar que isso não é exigente o bastante visto que implica que não se requer que salvemos vidas mesmo quando podemos fazê-lo a um custo baixo para nós mesmos. Essas visões violam a asserção intuitivamente plausível de Peter Singer de que “se está ao nosso alcance impedir que algo de ruim aconteça, sem assim sacrificar nada de importância moral comparável, devemos fazê-lo, moralmente falando”.5 Como Singer explica, a maioria das pessoas concordam que seria moralmente monstruoso simplesmente ficar olhando uma criança se afogar numa lagoa rasa quando você poderia facilmente salvá-la às custas de arruinar as suas roupas caras. Salvar vidas inocentes vale algum custo financeiro moderado, e qualquer teoria moral razoável precisa refletir esse fato.

Além disso, os proponentes do utilitarismo podem salientar que visões não utilitaristas são às vezes ainda mais exigentes. Recorde-se do exemplo de Sobel envolvendo José e Sara. A ética do senso comum proíbe Sara de roubar um dos rins de José, ainda que esse fosse o seu único modo de salvar a própria vida (e que o mal a José fosse apenas moderado). Isso mostra que a moral do senso comum pode ser muito exigente às vezes, requerendo até que você abra mão da sua vida por razões morais. Embora o utilitarismo faça demandas diferentes de outras teorias morais, as demandas do utilitarismo não são obviamente menos razoáveis. Elas sempre têm uma base em princípios, afinal.

Tolerar a Intuição

Finalmente, os proponentes do utilitarismo podem novamente “segurar as pontas” e simplesmente aceitar que a moral é muito exigente. Eles podem ressaltar que as demandas utilitaristas estão fundamentadas no objetivo atraente de criar um mundo de florescimento com tanto bem-estar quanto possível para todos. Sempre que o utilitarismo requer que abramos mão de algo que valorizamos para beneficiar os outros, pelo menos sabemos que esse benefício é maior, com frequência muito maior, do que o custo para nós.


Como Citar esta Página

MacAskill, W., Meissner, D., and Chappell, R.Y. (2023). A Objeção da Exigência. In R.Y. Chappell, D. Meissner e W. MacAskill (eds.), An Introduction to Utilitarianism, <https://www.utilitarisme.net/objections-to-utilitarianism/exigencia>, acessado em .

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Recursos e Leituras Adicionais


  1. Cf. Wolf, S. (1982). Moral Saints. The Journal of Philosophy 79 (8): 419–439. ↩︎

  2. GiveWell (2019). Against Malaria Foundation↩︎

  3. Sobel, D. (2007). The impotence of the demandingness objection. Philosophers’ Imprint 7: 1–17, p.3. ↩︎

  4. Sobel continua: “Qual teria de ser o entendimento da Objeção sobre as demandas de uma teoria moral para isso fazer sentido? Há uma resposta óbvia que já teve apelo até para críticos proeminentes da Objeção: que os custos do que uma teoria moral requer são mais exigentes do que os custos do que a teoria permite cair sobre os não auxiliados, mantendo constante o tamanho do custo. A significância da distinção entre os custos que uma teoria requer e os custos que ela permite tem de já estar estabelecida antes de a Objeção ter força. Mas isso quer dizer que o rompimento decisivo com o consequencialismo já teria ocorrido antes de sentirmos a força das intuições de exigência.” Parece então que não há fundamentos neutros para considerarmos o utilitarismo “mais exigente” do que teorias morais rivais, pelo menos no sentido de impor custos excessivamente altos a agentes. Podemos chegar a esse veredicto somente jogando sujo contra o utilitarismo ao implicitamente definirmos “exigência” de modo a levar em plena consideração somente certa subclasse de custos. ↩︎

  5. Singer, P. (1972). Famine, Affluence, and Morality. Philosophy and Public Affairs 1(3): 229–243, p. 231. ↩︎